Fátima Marinho

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Os Senhores do Universo e o Milagre de Fátima

São muitas as teorias sobre as alegadas aparições em Fátima e acerca do designado «milagre do sol». Um antropólogo meu amigo sustenta que a Senhora que os pastorinhos viram era, nem mais nem menos, a namorada de um geólogo que estudava, na época, o subsolo das redondezas. Defende que uma loira, de tez alabastro, seria facilmente confundida com um ser celestial por crianças esfaimadas, cujas mulheres conhecidas se cobriam de andrajos escuros, encimados por lenços negros.

Já o milagre do Sol só podia, para ele, ser enquadrado num fenómeno de histeria colectiva, igual a tantos outros de que está pejada a história da humanidade.

Além disso, um milagre faria acalmar o povo cuja fome convocava à revolta. Daí que a sua tese seja rematada pela convicção de que não foram os pastorinhos nem o povo que edificaram Fátima; terão sido, isso sim, Salazar e o Cardeal Cerejeira que, em conluio, mandaram retirar as crianças às famílias e fabricaram os pormenores e os segredos. O medo da condenação eterna havia de acalmar as hostes rebeldes. Os segredos revelados pela mãe de Jesus apaziguariam e distrairiam, a par com o fado e o futebol, um povo severamente castigado pela opressão.

Por mais precisa que seja a investigação sobre a fé dos homens e o que a sustenta ou distrai, por mais que pretendamos aprovar e acomodar às ordens da razão o que sentem, vêem e vivem os crentes, ficaremos, inevitavelmente, a meio de uma mentira, ou da parte de fora de uma verdade. Daí que, não será a consistência tangível e cartesiana do plausível a acrescentar ou a destruir os densos territórios das crenças. Estou mais inclinada a seguir as pisadas das representações, guiadas pelo imaginário, como a que este livro espantoso traz consigo.

De facto, Fernando Alagoa, numa escrita velocíssima, aclara uma possibilidade; abre uma cortina que nos permite, ainda que alegoricamente, acomodar o móbil dos que creem à razão dos que duvidam.

Um livro que se devora e nos deixa apeados das nossas certezas, sejam elas quais forem. Uma leitura recomendada, apenas, para os que gostam de acrescentar novos mundos ao mundo.

Fátima Marinho